De algumas décimas à investigação científica: o percurso inspirador de Idalécia Cossa Moiane
O percurso da Investigadora Idalécia Cossa Moiane demonstra que os caminhos para a ciência nem sempre são lineares. Entre uma candidatura não conseguida, uma disciplina inicialmente desafiante, oportunidades inesperadas e várias tentativas, construiu uma carreira marcada pela persistência, aprendizagem contínua e paixão pela investigação.
Em 2008, quando concluiu a Licenciatura em Ensino de Biologia pela Universidade Pedagógica, Idalécia Cossa já tinha percorrido um caminho diferente daquele que inicialmente imaginara.
O seu primeiro objectivo era ingressar na Universidade Eduardo Mondlane para estudar Medicina ou Biologia, estando mais inclinada para a área de Medicina. Contudo, não foi admitida por uma diferença de poucas décimas.
A situação foi frustrante e, durante algum tempo, Idalécia ainda pensou na possibilidade de mudar de percurso. Porém, à medida que avançava na formação em Ensino de Biologia, começou a descobrir uma forte ligação com a área.
Entre as disciplinas que frequentou, a Parasitologia destacou-se como uma das mais exigentes. Na altura, a cadeira era leccionada pela Professora Florência e representava um grande desafio. Anos mais tarde, porém, seria precisamente essa área a orientar grande parte do seu percurso científico.
Depois de concluir a licenciatura, Idalécia iniciou a sua carreira profissional no Ministério da Saúde, na área das doenças tropicais negligenciadas. Em 2009, integrou o trabalho de implementação da desparasitação massiva no país, inicialmente concentrada em províncias da região Norte.
A experiência permitiu-lhe compreender a relação entre as doenças parasitárias e factores como as condições ambientais, os hábitos culturais, a higiene e as condições de vida das comunidades.
Foi também neste período que começou a participar em formações dirigidas a técnicos e profissionais de saúde. Durante uma dessas oficinas, conheceu o Dr. Lester Chitsulo, da Organização Mundial da Saúde, que se mostrou impressionado com a paixão e o domínio demonstrados por Idalécia na transmissão dos conteúdos.
O encontro acabaria por representar um ponto importante no seu percurso.
Foi o Dr. Lester Chitsulo quem lhe sugeriu a possibilidade de frequentar um Mestrado em Parasitologia Médica no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, em Lisboa.
Idalécia candidatou-se e foi admitida. No entanto, havia um desafio: não tinha uma bolsa de estudos garantida.
Ainda assim, decidiu avançar.
Em Portugal, aprofundou os seus conhecimentos em Parasitologia Médica, sob supervisão da Dra. Silvana Belo, e teve um contacto mais profundo com a investigação laboratorial. A sua dissertação de mestrado envolveu técnicas de diagnóstico molecular e o estudo de possíveis alterações no DNA do Schistosoma, incluindo a simulação do ciclo do parasita em laboratório.
Em 2013, regressou a Moçambique e integrou o Laboratório de Parasitologia do Instituto Nacional de Saúde.
Foi nesta fase que a investigação científica passou a ocupar um lugar cada vez mais central no seu percurso.
Mas a transição para o mundo da investigação trouxe também novos desafios. Era necessário publicar artigos científicos, e lidar com as exigências do processo de publicação.
O caminho incluiu rejeições, correcções e novas tentativas de publicações.
Com o apoio de investigadoras e mentoras como Ana Afonso, Nilsa de Deus, Silvana Belo e Tufária Mussa, Idalécia continuou a desenvolver as suas competências em escrita científica.
Em 2014, publicou o seu primeiro artigo, com os dados do seu Mestrado.
Posteriormente, a Bolsa de Produtividade Científica do Instituto Nacional de Saúde permitiu-lhe investir ainda mais na sua formação e actividade científica, incluindo a participação em eventos, aquisição de materiais e continuidade da formação em língua inglesa.
Entretanto, um novo objectivo começou a ganhar forma: o doutoramento.
Mais uma vez, o percurso exigiu persistência. Houve propostas que precisaram de ser aperfeiçoadas, novas áreas de conhecimento a explorar e uma primeira tentativa que não teve o resultado esperado.
Idalécia voltou a preparar-se para realizar a sua candidatura.
Frequentou formações em áreas como epidemiologia, bioestatística e métodos de investigação e voltou a candidatar-se ao doutoramento.
Desta vez, conseguiu avançar, e teve uma bolsa do Instituto de Medicina Tropical de Antuérpia, Bélgica.
O seu projecto de investigação procurou explorar a relação entre parasitoses intestinais, desnutrição e recuperação das crianças por desnutrição ao longo do tempo. Mais uma vez, um desafio lhe é colocado: abraçar a nutrição, uma área fora da sua zona de conforto.
O processo envolveu a elaboração do protocolo, a preparação metodológica e um longo período de aprovação ética que devia ser obtida em Moçambique e na Bélgica.
Em Dezembro de 2017, iniciou a fase piloto da investigação nos Hospitais Gerais de José Macamo e de Mavalane. A implementação do estudo teve lugar em Janeiro de 2018. O estudo acompanhou crianças desde a sua admissão hospitalar e continuou após a alta, procurando compreender não apenas a condição clínica, mas também aspectos relacionados com o contexto familiar e comunitário.
Ao longo deste trabalho, a investigação permitiu gerar reflexões sobre a relação entre diferentes condições de saúde, a desnutrição e a importância de uma abordagem mais integrada no acompanhamento das crianças em recuperação por desnutrição.
O seu doutoramento contou com a supervisão de uma equipa internacional, constituída pela Nilsa de Deus (Moçambique), Katja Polman e Jean-Pierre (Bélgica), Colleen Doak (Estados Unidos da América), Maiza Campos-Ponce (Holanda).
Hoje Mestre em Parasitologia médica pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa e Doutorada em Ciências Médicas pela Universidade de Antuérpia, para Idalécia Cossa, o percurso até à investigação científica não foi marcado apenas por diplomas ou publicações.
Foi também construído através de desafios, mentorias, oportunidades e persistência.
A investigadora que, anos antes, não conseguiu entrar no curso que inicialmente desejava por algumas décimas, encontrou na Biologia e, posteriormente, na Parasitologia, um caminho que não tinha planeado e actualmente a sua essência na ciência.
A sua história deixa uma mensagem clara para a nova geração de investigadores: o percurso científico não precisa de ser perfeito para ser bem-sucedido.
Uma candidatura não conseguida, um artigo rejeitado ou uma tentativa que não resulta não definem a capacidade de um investigador. Pelo contrário, podem fazer parte do processo de aprendizagem.
“Um investigador constrói-se”, parece demonstrar o percurso de Idalécia Cossa Moiane. Constrói-se através do conhecimento, da curiosidade, da orientação de mentores e, sobretudo, da coragem de continuar.
Porque, por vezes, é precisamente num caminho que não tínhamos planeado que encontramos a nossa verdadeira vocação.


